Traseiro de indivíduo alcoolizado não tem dono.

Wanderley acordou nu, numa cama estranha de um lugar que não conhecia. Ao recobrar melhor os sentidos notou que a cama era redonda e os objetos ao derredor apontavam que o local em que esta cama estava alojada era um quarto de motel. Ao olhar fixamente para frente mirou o espelho do teto onde estava o seu reflexo nu e de outro indivíduo vestido de índio e deitado de bruços sobre a cama. Um homem seminu travestido de indígena dividia o leito do motel com Wanderley.

Observando mais atentamente a situação Wanderley notara que suas roupas estavam espalhadas pelo recinto. Wanderley sabe que quando isso acontece significa que ele fez sexo, pois odeia transar vestido, despe toda e qualquer peça de roupa. Antes de conseguir se mover Wanderley acionou sua memória e nela resgatou a lembrança de estar fantasiado de Zorro numa festa a fantasia. Sua cabeça doía e sua boca estava com gosto de maçaneta, mesmo assim Wanderley conseguiu formular um raciocínio lógico que se resume na seguinte sentença: “hoje acordei nu numa cama de motel ao lado de um homem fantasiado de índio, minha fantasia de Zorro estava espalhada pelo quarto, denotando que fiz sexo, estando apenas eu e esse índio desconhecido dividindo a cama e ninguém mais, o sexo foi entre eu e ele”. Qualquer conclusão tomada, além disso, seria hipótese. Num momento delicado como esse não se trabalha com hipóteses.

 Não, ele não acordou ao lado da Catherine Zeta-Jones…

Até o dia de ontem as 22horas e 45 minutos Wanderley era um homem heterossexual, solteiro, brasileiro, engenheiro mecânico, residente e domiciliado a Rua Getulio Dorneles Vargas número 1245, nesta capital. Doravante Wanderley coloca em dúvida sua opção sexual. A festa d’antanho fora demasiado agitada e Wanderley bebera copiosas doses de bebidas destiladas, além de uma quantidade industrial de cerveja. Neste momento Wanderley sofre de amnésia alcoólica e não consegue lembrar nada que acontecera das duas horas e cinqüenta e seis minutos desta manhã até agora. O horário atual ainda é desconhecido para Wanderley que se levanta sorrateiramente, tomando cuidado para não acordar o índio, e sai à cata de seu relógio. Após tatear pelo chão encontra sua calça e no bolso seu relógio juntamente com as chaves do seu flamante Citröen C3. Ao mover as pernas nota que entre suas nádegas uma substância pastosa muito viscosa proporciona uma sensação nunca d’antes experimentada. Essa mesma substância está alojada no seu reto, ao que tudo indica, pelo cheiro e coloração trata-se de lubrificante íntimo.

O relógio instalado em seu pulso marca onze horas e trinta e dois minutos da manhã. Um lapso de praticamente oito horas na memória de Wanderley escondia algo trágico. De posse da fantasia de Zorro, seu relógio, as chaves do carro e sua carteira Wanderley ruma para a garagem com a intenção de evadir-se do local e apagar de vez qualquer fato ou conseqüência que estas oito horas perdidas em sua mente possam esconder. Na garagem Wanderley acha um automóvel Opala duas portas ano 1983, branco, chaveado e com o alarme ligado.

A dimensão real do problema tomou forma no instante em que uma voz de barítono ruge do interior do quarto: – Wander! Volta pra cama. Neste exato momento Wanderley tomou conhecimento de que era íntimo desse homem e provavelmente ele lembra de tudo o que aconteceu. Foi então que o impasse aconteceu, o que fazer? Voltar para o ninho de amor e pedir detalhes de tudo o que ocorreu ou simplesmente fugir do local. Fugir como? Chegara até ali de carona. E agora? O que fazer?

Wanderley retornou vacilante para o quarto do motel e da porta avistou o torso nu daquele índio que estava virado para a porta, mais abaixo se notava um enorme falo, aterrorizante. Eis que o indígena sussurra: – Deita aqui xuxu!.

Wanderley respondeu: – Olha, eu já chamei um taxi, estou atrasado para minha aula de yoga. Pedi um café da manhã bem gostoso para você, não sai daí, coma tudo e deixa que eu acerto na portaria. Amanhã eu te ligo.

Dito isso Wanderley desatou a correr de volta para a civilização com uma única dúvida. “Será que eu gostei”?

Por isso minhas crianças que o dindo sempre fala: Se beber não dirija, mas cuidado! O traseiro de um indivíduo alcoolizado não tem dono.

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