E o anão gemia como um porco sendo carneado. Todos correram até sua maca. E ele grasniu:
- Foi ele! Foi ele! – Apontando para Paulo.
- Foi ele quem me salvou! Ele não deixou que eu morresse. Me beija Paulinho! Eu te amo! Diz que se eu morrer agora eu serei o último homem da tua vida! Diz!
Na maca ao lado uma velha senhora horrorizada olha para Paulo e grita:
- Pederasta! – Olhando-o com cara de asco cospe no chão.
Paulo imediatamente olha para a enfermeira que está embasbacada. Parece não acreditar no que vê e ouve. Aquela cena era abjeta para os espectadores. O anão estava desfalecendo, perdendo suas forças, mas continuava a falar. O sangue de Paulo gelara nas veias, temia o anão sobreviver. Queria ele morto. Teve uma idéia brilhante. Abraçou o pequeno miserável e apertou o rosto do anão contra o peito com grande força. Para os que olhavam a cena, parecia mais um abraço carinhoso entre dois homossexuais. Alf era pequeno e o tórax de Paulo disfarçava os movimentos que culminariam na asfixia do infeliz. Paulo teve a impressão de ouvir algumas palavras emitidas pelo anão, que saíram abafadas. Pareceu algo como “filho da puta”, talvez tivesse sido impressão.
- Está morto, anotem no prontuário: falecido às cinco horas e dezesseis minutos do dia quatorze de julho de 2009. – Disse o médico declarando a morte tão aguardada do infeliz.
Dos males o menor, era preferível ser tachado de afetado, homossexual a ser condenado por assassinato. Paulo apenas precisaria solidificar uma história para o depoimento na polícia e tratar do funeral do anão. Entretanto, Paulo descobriria mais tarde fatos escusos da vida desse fauno que vão muito além da homossexualidade.
- Sr. Paulo, meus pêsames pelo seu namorado.
Paulo ouviu aquela voz suave como acorde de flauta, era a enfermeira. Ela estava em pé logo atrás dele. Linda. Aquela boca entreaberta besuntada de gloss incolor fazia dela uma atração irresistível. Tinha vontade de beijá-la.
- Na-não é meu namorado, sou hetero. Ele tinha problemas mentais era meu cunhado.
- Você é casado?
Aquela réplica da enfermeira acicatou o instinto caçador a muito abafado sob o peito de Paulo. Ele aproximou-se da enfermeira até poder sentir com clareza seu perfume suave, perfume de freiras, e igualmente saborear o aroma do seu hálito de frutas silvestres.
- Não, na verdade eu apenas estava morando com uma das irmãs dele. Melhor, com as duas. Mas apenas com uma delas eu tinha um relacionamento.
Aquela explicação de “apenas uma delas” não era necessária e gerou certa desconfiança.
- Hum... Entendi. Mas, enfim, deve estar sendo difícil para você. Se precisar de um ombro amigo estarei aqui.
- Eu preciso, quer dizer, o que acha de tomarmos um café para nos conhecermos melhor. Qual seu nome mesmo?
- Pâmela, desculpa não me apresentei. Mas você não é um homem observador, estou de crachá.
Era mesmo uma besta esse Paulo. Merecia se ferrar. Todo o otário é assim não repara em nada à sua volta, nem em algum golpe. Uma mulher bonita, sensual, sexy, macia e cheirosa iria se oferecer assim para um homem na situação em que ele estava? Aparentemente um homossexual que estava sepultando o namorado morto sob circunstâncias duvidosas em que ele mesmo parecia estar envolvido.
Antes que a moça pudesse aceitar o café Paulo era interpelado pelo policial militar de plantão, precisaria dar depoimento e explicar o imbróglio. Estava em maus lençóis.
(continua...)
Roberto Carlos, o delegado de plantão
Roberto Carlos– cronista que mostra a vida como ela é, mas com um pouco de nonsense... Para ler outros textos deste autor entre aqui. |
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