
Há muitas atitudes que falam muito mais de nós que realmente conseguiríamos expressar com palavras. Situações extremas, por exemplo.
Suponhamos que um furacão fosse detectado e que se aproximaria de sua residência em questão de alguns minutos e a defesa civil lhe desse pouco tempo para decidir o que acharia imprescindível levar. O que você levaria?
Houve um momento em minha vida em tive de escolher o que levar. Claro, não ia ter furacões, minha casa não ia cair. Pelo menos não a minha casa física. Mas posso dizer que era uma situação limite.
Algum tempo depois, meses, fiquei impressionada com o conteúdo da bagagem. Detalhe importante: era uma linda e gigante mala pink e uma vermelha. Haviam coisas esperadas, roupas, lingerie, meias, calçados. Coisas básicas que me manteriam aquecida ou vestida com certa decência. Havia documentos, bijuterias, um secador de cabelo, pente e escova de dentes, um desodorante , um vidro de perfume, um caderno de anotações de cerca de 20 anos antes , algumas fotos. Ah, os meus lápis-de-cor aquareláveis que eu nunca uso, mas levei mais de 15 anos querendo comprar. Isso eu conto em outra ocasião. Tinha também um barquinho de madeira que os índios do Amazonas esculpiram e alguém me trouxe de presente.Uma casinha entalhada, vinda de Recife.Alguns batons, um volume de Mais Platão e menos Prozac, presente de uma amiga que estava estendendo seus horizontes e desejava que eu fizesse o mesmo com os meus. Também tinham algumas folhas com receitas e o mais esdrúxulo dos objetos, pelo menos a meu ver, um livro de receitas econômicas!
Arrastei minha bagagem por algumas cidades e ainda não sei como meu corpo agüentou tanto peso. E hoje ainda me perguntou: Pra que um livro de receitas se nem sou amante número um de cozinha? Talvez tenha sido pela receita de rocambole... Alguma coisa que Freud deve explicar e se não explicar também não faz a mínima diferença...
Voltando ao foco, sei que sou apenas um caso. Embora comum, não chego ao ponto de me tornar uma epidemia. E nem tem tanta gente arrastando malas pinks por aí. O que acho válido é poder parar para refletir sobre o que somos e o que as reações podem nos dizer de nós mesmos. Mesmo que simulações nem sempre retratem o que aconteceriam de fato em uma situação limite. Fica para a reflexão.
O que você levaria na sua bagagem se precisasse escolher apenas coisas imprescindíveis que coubesse em apenas duas malas?
Pense nisso para esse novo ano que chega. Feliz Ano Novo!
Luciana Rosa
Luciana Rosa é escritora e cronista. Se define um "animal sentimental"; animal como todos nós somos, porém com mais sentimento e com mais a dizer.
|
|---|
| Comentários |
|






