
Uma vez um rapaz me perguntou se eu não me cansava de estar a tanto tempo fazendo sexo com uma mesma mulher, minha esposa na época, e se eu realmente nunca tinha dado uma escapada, se não sentia falta variar um pouco e de experimentar com outras.
No dia eu achei melhor dar uma resposta politicamente correta e disse que não, nunca havia sentido vontade de estar com outras mulheres. Era, obviamente uma mentira, tanto para ele quanto para mim mesmo. É claro que eu sentia vontade de transar com outras mulheres, tinha curiosidade de saber como ou o que elas fariam de diferente na cama, ou mesmo sentia vontade de sentir um gosto novo ou um novo cheiro de mulher. Eu, na verdade, vejo isso como uma reação natural e não apenas nos homens, mas também nas mulheres.
Lá pelas tantas, depois de tantos anos juntos, alguns casais começam a sentir vontade de variar, principalmente os casais que colocam o sexo como a base de seu relacionamento. Acontece que com o tempo eu fui percebendo que o sexo pode continuar sendo bom, mesmo depois de anos transando com a mesma pessoa, se ele não for o ponto central do casamento.
Quando o respeito entre os dois e bem estar do casal está acima do sexo, olha só que interessante, sentimos mais prazer de estar juntos e com isso sentimos mais prazer na nossa relação sexual e sentimos menos vontade de experimentar outras coisas fora de casa. Se analisarmos friamente, inclusive, isso tem lógica.
Pensem comigo.
O sexo é altamente dependente de fatores emocionais. Sentimentos como insegurança, medo, desconfiança e ciúmes tendem a nos deixar indispostos, ou mesmo incapacitados, para o prazer sexual.
E esses sentimentos são, na maioria das vezes, alimentados pelos pequenos problemas da vida cotidiana, como aquelas mágoas que a gente tem do outro, sem nem saber por que. Sabe aqueles pequenos detalhes que não percebemos no dia a dia, a não ser se estivermos preocupados em prestar atenção neles.

Em geral não nos importamos se a toalha molhada em cima da cama vai incomodá-la, como não nos preocupamos se a calcinha no Box vai incomodá-lo. Pouco pensamos se aquele gesto dela foi para nos agradar, não importa o resultado que teve, nem pensamos que aquele toque dele foi um gesto de carinho e não uma proposta. Vamos apenas levando a vida e nos afastando um do outro porque não baseamos nosso relacionamento no respeito mutuo e sim no sexo, justamente o aspecto da vida em casal mais suscetível a ser destruído por esses pequenos problemas. E é quando o casal entra nessa fase de sabotagem mútua que surge a vontade de experimentar outros horizontes.
Eu passei por fases assim, acho que a maioria absoluta dos casais passa por isso. Mas percebemos que o que estava acontecendo com o sexo, ou a falta dele, era reflexo do pouco cuidado e atenção que um dedicava ao outro. Paramos para analisar o que nos deixava mal e começamos, os dois (isso não é algo que dependa apenas de um), a tomar cuidados que antes não tínhamos. Observamos que na verdade ainda existia o tesão, por baixo daquelas diversas camadas de mágoas e desatenção. Só precisamos limpar cuidadosamente o nosso jardim, cuidar de nossas flores e colocar o respeito e a cumplicidade acima do sexo na nossa lista de prioridades. Nosso sexo nunca foi melhor.
Se hoje aquele rapaz fizesse novamente a mesma pergunta eu responderia a mesma coisa, mas agora eu não estaria mentindo.
Marcio Luis Severo