Em uma manhã de verão, chuvosa, Adalberto acordara tarde e estava atrasado. O ano era de 2110, aos onze dias do mês de janeiro. Precisava correr para bater o ponto e não levar advertência do seu chefe. Não teve tempo de fazer o desjejum, sua úlcera dava pulos. A fome o deixava mal humorado. O transporte público estava lotado. Precisou viajar em pé. Pensou no seu falecido pai que sempre dizia: “Estude meu filho, para ser alguém na vida.”
Adalberto tinha 42 anos, solteiro, morava sozinho num JK. Considerava-se um homem mal sucedido, feio e sem perspectiva. Não era auto-comiseração e sim, a mais pura verdade. Ele não cansava de dizer aos seus amigos que estava em uma fase interessante da vida onde ele sabia que não haveria mudanças drásticas em sua vida nem para melhor ou para pior. Vivia uma estagnação que precedia a decrepitude e isso o deixava em um estado de resignação serena.
Imagine você vai a praia e nem precisa se preocupar com o regime? É só usar o photoshop Tabajara! (trabalho de imagem:Gabriel Corvelo Gobbo)
Sua meta para o corrente ano era comprar o que ele considerava a invenção que mais deu liberdade as mulheres em toda a história da humanidade. Invenção esta que agora era considerada normal para ser utilizada por homens: o fabuloso photoshop holográfico corporal. Para nós, meros recolutos do século XXI, é basicamente um photoshop que transforma o corpo da mulher, ou do homem, em estado visual, táctil e olfativo da forma que o cliente desejar. Basicamente a partir do momento em que iniciou-se a comercialização do photoshop corporal não se soube mais quem era quem e os cirurgiões plásticos passaram a mendigar nas esquinas. Antes de finalizar este adendo explicativo darei um exemplo. Uma mulher de 60 anos, barriguda, pelancuda e sem bunda, pode se transformar numa ninfeta tenra, macia e bunduda como num passe de mágica. E o melhor de tudo é que as outras pessoas ao tocarem essa senhora, terão a sensação de estar apalpando as nádegas lisas e rijas de uma garota de 21 anos, inclusive ela terá cheiro de rosas e hálito de romã madura.
Bom, Adalberto sonhava em ter um corpo de surfista marombado com aparência de 23 anos e bem dotado. Estava agendada sua “fotoxopagem” corporal para a tarde desse dia 11. Tiraria folga do trabalho e retornaria para casa, por volta das 18 horas com a aparência que sempre sonhou. Após isso iria para uma balada. Lá procuraria uma mulher gostosa, deliciosa, com lábios carnudos, seios fartos e pétreos, barriga lisinha com um piercing no umbigo, cintura fina, ancas de égua, largas, com uma bunda igualmente opulenta e rígida e lisa e cheirosa e apetitosa. Queria lamber suas pernas, morder suas coxas, se lambuzar em sua perseguida, apalpar seus seios e agarrar sua cintura. Adalberto queria ter o máximo de prazer, uma pajelança hedonista. Queria a apoteose dos sentidos, o sexo em sua mais pura forma.

Enfim chegara a grande hora. Após terminado o photoshop Adalberto olhou-se no espelho. Gostou do que viu. Foi ao banheiro e abriu a calça. Alojado em sua cueca estava um enorme falo, adormecido para a direita. Colocou-o para fora da cueca e sentiu seu peso, mirou o vaso e urinou. Urinou muito, um jato barulhento. Sentiu-se um jumento urinando. Não via a hora de ter uma ereção para ver que tamanho aquilo atingia.
O falo avantajado o deixou seguro, talvez ele nem quisesse ser belo, queria mesmo era ser piçudo. Na rua, no trajeto de volta para casa, sentia os olhares. As mulheres pareciam o lamber com o olhar. Sentiu-se cobiçado, o macho alfa. Vestiu-se bem, com roupas justas, foi para uma balada.
Adentrou o recinto e, de início, não se sentiu à vontade. Porém, com o decorrer do tempo e com o assédio das mulheres passou a se sentir o máximo. Logo achou sua musa. Uma loira voluptuosa, deliciosa, lindíssima, bem humorada, carinhosa e fácil. Na verdade era uma tarada, ninfomaníaca. Obrigou-o a ir com ela ao banheiro para ela praticar um voraz sexo oral nele. Após convidou-o para ir à sua casa.
Ao chegar ao local, Adalberto estranhou o ambiente. Muitas rendas sobre os móveis, uma cadeira de balanço com agulhas de tricô e novelos de lã ao lado. Parecia ser uma casa de alguma velha matrona. Não deu muita bola, deveria morar com a avó. O tesão era tanto que arrancou suas roupas ali mesmo e praticamente rasgou as roupas da sua vítima. Então ela disse:
- Vai devagar com esse trabuco, sou virgem.
Adalberto urrou de alegria e de membro em riste gritou:
- Vou te deflorar! Vou te deflorar!
Adalberto sentiu sua vagina apertada e molhada e ao penetrar, aconteceu um desastre. A moçoila também era “fotoxopada” e uma incompatibilidade de interfaces gerou um erro fatal incompreensível para as luzes do conhecimento atual. Sucedeu-se que as mudanças corporais embutidas se desfizeram. Adalberto viu-se transando com uma velha senhora, enrugada e desdentada. Aos gritos ele ergueu-se e olhou-se no espelho. Viu a imagem do Stênio Garcia com aqueles dentes de burrochó.
Roberto Carlos – cronista que retrata casos "venéricos", veridícos e verdadeiros, e um tanto non sense. Mas poderia acontecer com você... Para ler outros textos deste autor entre aqui. |
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