
Saudações meus estimados leitores e leitoras, estava eu a pesquisar em meus alfarrábios digitais e encontrei uma história venérica. Muito antiga, do tempo em que as pessoas casavam e faziam despedidas de solteiro.
Pois bem, esta despedida em questão não foi uma pajelança qualquer. Não pensem que, num recinto fechado, enfurnaram uma ou duas prostitutas junto com um bando de marmanjos e elas fizeram um strip meia boca. Não senhores! Essa farra tinha o objetivo de ser épica, de ter seus feitos gravados no bronze da história, uma patuscada de fazer Calígula revirar no túmulo. Mas, não foi. Foi, isso sim, um desastre homérico.
Devo aqui ressaltar que, nos dias que antecederam o atraque carnal coletivo, todos os movimentos foram planejados nos mínimos detalhes, toda a operação estava arquitetada para não haver falhas e não levantar suspeitas. Desde a cor do fio cheiroso que se alojaria entre as nádegas das moçoilas até o isolamento do quarteirão onde o evento iria ocorrer. Tudo à surdina, com seguranças na rua, sem carros estacionados defronte ao local, sem luzes e nem muito alarido. Afinal de contas, o noivo era um nababo conhecido na localidade e seus convivas eram autoridades da mais alta cúpula municipal, incluindo o clero regional. Haviam até representantes da chefatura de polícia.
Buenas, como vós sabeis, mulheres que fazem sexo mediante aviamento de soldo não dão em cachopas nas árvores. Essas mariposas precisavam ser trasladadas ao local. Sim meus caros, deveria haver uma logística sofisticada para o transporte das raparigas. Nesse ponto ocorreu a falha que desencadeou a tragédia.
Meus amigos e amigas hão de pensar cá comigo na quantidade de mulheres necessárias para um intercurso carnal dessa magnitude e violência. Pois vos digo que era uma quantia numérica superior ao que todo o distrito dispunha. Os organizadores sobre dimensionaram tanto o evento que não se deram conta da escassez de material humano. Talvez em números absolutos existissem donzelas disponíveis para dar conta da empreitada, entretanto os nobres organizadores precisaram excluir as mulheres mais feias da equação e no fim das contas o saldo não fechava.
A solução encontrada para esse impasse foi importar mulheres de outras paragens. Pelos cálculos efetuados umas cinco moças de bom porte e de boa monta resolveriam a parada. Por comodismo o escalado para transportar a carga viva foi um amador. Lastimável, uma tarefa dessas não pode ser delegada a amadores. O sujeito escolhido era um convidado que viria doutra comarca para a festa. Todos sabem como é, já que o fulano vem de lá mesmo pode trazer, tudo dominado.
Entonces, nosso herói embarcou em seu veículo como quem vai às pitangas e rumou ao meretrício indicado por seus comparsas. Vou chamá-lo de Alvarenga, nome fictício. Alvarenga era casado à época com a Dra. Ana, igualmente um nome fictício. Dra. Ana era delegada de polícia, uma mulher belíssima, curvilínea, carnuda, porém magra, cintura fina, seios fartos, lábios grossos e aveludados como um pêssego chileno, olhos amendoados e de cílios longos e negros como seus cabelos sedosos. Aninha, como Alvarenga a chamava, era uma mulher temperamental, rígida e sisuda como o dever lhe exigia. Andava sempre armada e alerta como um perdigueiro. Alvarenga era um pulha, trabalhava numa loja de ferragens de sua propriedade e tinha um aviário de médio porte. Era baixinho, gordinho, careca e medroso. Quando o sapato apertava chamava pela mulher. Tinham um casamento estável que terminaria na noite fatídica. Uma dessas peças que o destino nos prega.
Sucedeu-se da seguinte forma: Alvarenga estava com cinco prostitutas devidamente caracterizadas em seu carro dirigindo-se ao município vizinho para o evento. Rodava por ruas de pouco movimento para evitar qualquer flagra. Já passava das onze horas da noite, Alvarenga parou num semáforo que estava fechado. Não queria cometer nenhum deslize, achou melhor esperar o sinal abrir. Eis que ao seu lado para um carro exatamente igual ao da sua mulher. E era sua mulher.

A Delega Ana chegando ao recinto da despedida de solteiro do seu noivo...
Os momentos que se seguiram foram de puro pavor. Aninha desceu do carro com seu revólver 38 em punho. As prostitutas saíram correndo e gritando. Alvarenga estava paralisado, em pânico. Aninha efetuou alguns disparos para o alto e um na direção de Alvarenga que passou zunindo, rente ao seu ouvido esquerdo desencadeando uma incontinência urinária no pobre homem.
Não houve nem chance para explicações. Dra. Ana algemou Alvarenga, todo urinado, e o levou para o distrito policial em flagrante delito de cafetinagem. Alvarenga passou a noite na cadeia em uma cela estreita com marginais perigosos. Dra. Ana fez questão de dizer aos companheiros de cela de seu agora ex-marido que ele havia estuprado uma estudante de 19 anos. Alvarenga apanhou como um cão sarnento e foi currado por horas a fio.
O saldo da tragédia foi um litígio escandaloso, uma delegada punida por abuso de poder, um homem com sua honra maculada e uma despedida de solteiro arruinada. Por pressão dos amigos Alvarenga admitiu que fosse promover uma festinha privada somente dele e das cinco prostitutas. Alegou que todas eram para consumo próprio e que ele não era, de forma alguma, um alcoviteiro ou cafetão. No divórcio Aninha levou metade da loja de ferragens e metade do aviário. Ambos foram vendidos para que o dinheiro proveniente fosse dividido entre as partes. Com a parte dela Aninha viajou para a Europa, comprou uma casa nova, conheceu um homem 10 anos mais jovem e viveu feliz. Alvarenga pagou os honorários advocatícios, um apartamento de dois quartos e uma cirurgia de hemorróidas.
Portanto, minhas crianças, nunca contraiam matrimônio com uma mulher que anda armada.
Roberto Carlos, escrivão da delegacia
Roberto Carlos – cronista que retrata casos "venéricos", veridícos e verdadeiros, e um tanto non sense. Mas poderia acontecer com você... Para ler outros textos deste autor entre aqui. |
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