
Seis horas da tarde de uma sexta feira pachorrenta, Arnaldo estava em seu escritório, olhando a foto de sua mulher no porta-retrato, o telefone toca. Do outro lado da linha era Irineu, amigo de longa data, um porra louca, inconseqüente e farrista.
- Arnaldo, preciso de um favor seu.
Irineu sempre precisava de favores e de dinheiro.
- Fala Irineu, o que é que manda.
- Preciso do seu carro emprestado, o meu está na oficina e hoje eu preciso levar uns corpinhos para uma festa.
- Pô Irineu, não vai dar. Minha mulher viajou com o carro dela e eu ficarei a pé.
- Sem crise, vamos juntos na festinha. É batata! Sigilo absoluto, só gente a fim de bandidagem, casadas, casados, safadas e safados.
A conversa que se seguiu foi de uma canalhice abjeta. Arnaldo foi persuadido a ir à festa. Não oferecera resistência, estava curioso. Preparou-se com esmero, perfumou todo o seu corpo, besuntou-se de hidratante corporal, colocou uma camisinha no bolso. Levou apenas um preservativo, pois não pretendia usá-lo, o teria consigo por precaução.
Arnaldo sempre fora fiel à sua mulher, porém tinha desejos por outras mulheres. O homem só é fiel por medo ou incompetência. Arnaldo era um medroso. Não que sua esposa não lhe satisfizesse, muito pelo contrário, era uma mulher belíssima, carnuda, lasciva. Era loira de pele bronzeada, olhos verdes e grandes, boca grande, lábios polpudos como dois pedaços de manga rosa, seios fartos e firmes, barriga lisa e sarada, coxas grossas e nádegas arrebitadas, um traseiro avantajado emoldurado por uma cintura fina. Uma mulher voluptuosa. Chamava-se Vanessa.
Vanessa era tida como uma mulher séria, entretanto notava-se o fogo a brotar dos poros. Pele quente, sangue fervendo. Arnaldo sentia um desejo imenso por sua mulher, ela era sua companheira, sua cúmplice em todas as horas e, principalmente, sua amante. O casal fazia de tudo sob os lençóis, mesmo depois de anos casados tinham arranques de desejo que duravam noites inteiras em ruidosas conjunções carnais. Para Arnaldo, Vanessa era a mulher perfeita.
Todavia, Arnaldo era homem e nós homens em algum momento da vida, ou em vários deles, precisamos provar outra carne, outro sugo, outra fêmea. Um homem que disser nunca ter desejado a mulher alheia é um mentiroso ou um pederasta. O sujeito quando adentra a casa dos quarenta ou se aproxima dela sente-se no afã de conquistar mulheres jovens e frescas. Arnaldo tinha ganas de possuir as estagiárias do local onde trabalhava, sentia calores quando as via em suas calças justas que delineavam suas coxas roliças querendo estourar as costuras. Arrepiava-se ao olhar os decotes generosos que desnudavam a pele alva e macia daquelas moças cheirosas e belas.
O medo cerceava suas taras e desejos. Talvez seja o medo o maior e mais intransponível dos muros que cercam um ser humano, bem aventurados os destemidos. Arnaldo era um comedido, um caxias, reprimia-se tanto que desenvolveu uma úlcera. Gastrite nervosa, era o que tinha Arnaldo.
Arnaldo olhou-se no espelho, achou-se bonito, estava nervoso com a festinha do amigo Irineu. Pensou em desistir, ligou para o amigo. Este, muito ladino, convenceu-o a ir, forneceu as coordenadas de onde deveria buscar as garotas e o endereço da casa onde seria consumada a orgia. Com os nervos em pandarecos e o estômago ardendo Arnaldo foi, fez o que deveria ser feito.
Seguindo as orientações de Irineu, estacionou seu carro nas proximidades de uma praça onde estavam esperando três mulheres. Elas estavam avisadas da manobra e imediatamente embarcaram no veículo. Arnaldo sentiu um arrependimento, e se o vissem com aquelas ordinárias? Agora não adiantavam elucubrações, era fato consumado.
Conversando com elas descobriu que todas eram casadas. Falavam com vulgaridade, como prostitutas, queriam sexo, queriam ser possuídas. Arnaldo travou com aquelas mulheres e elas perceberam isso. No trajeto provocavam Arnaldo e se divertiam, gargalhavam como donas de cabarés. Arnaldo sabia que no local haveria mais algumas mulheres e uns poucos homens, amigos de Irineu.
Chegando ao local combinado o grupo se encontrou com o restante do pessoal. Era uma casa ampla, a luz era mínima e a música estava alta. As mulheres dançavam em grupos. Arnaldo se interessou pela silueta de uma delas, loira, carnuda, dançava de costas para ele e rebolava. Tomou coragem e abordou a beldade.
- Vanessa?
- Arnaldo? O que você faz aqui?
Em arrepio percorreu sua espinha, sua mulher estava lá, suas pernas bambearam. Sem pensar muito Arnaldo tomou para si o que era seu de direito. Rasgou as roupas de Vanessa, roupas minúsculas que ela não costumava usar. Vanessa não se opôs, parecia estar se divertindo, usava uma calcinha de rendas, vermelha. Arnaldo arrancou aquela calcinha com os dentes e possuiu sua esposa com fúria. O fato de outras pessoas presenciarem o evento o excitava mais ainda. Sentia um prazer enorme, algo que nunca havia sentido nem com Vanessa ou com mulher alguma. Gozou como nunca d’antes havia gozado e disse:
- Quero o divórcio. Vou procurar outra mulher para me casar novamente e quero que seja minha amante.
Roberto Carlos – cronista que retrata casos "venéricos", veridícos e verdadeiros, e um tanto non sense. Mas poderia acontecer com você... Para ler outros textos deste autor entre aqui. |
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