Do aprendizado da dor

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Quando jovens idealizamos o amor e também idealizamos a dor de amor. Qual adolescente não sofreu horrores por causa de alguém que o rejeitou? Parece que o chão se abriu sob os seus pés e que o mundo está se acabando, mas alguns dias depois a dor passa e nossos jovens olhos se voltam para outras belezas, outros enganos, outras dores ou outras felicidades.

Do alto de nossa inexperiência acreditamos que a pessoa amada nos fará felizes e depositamos nos seus ombros a carga de ser feliz e de nos fazer feliz. Choramos e sofremos por causa de traições de namorados, por causa de rejeições de desconhecidos, por amores idealizados, por amores platônicos, por separações que são esquecidas em poucas semanas. Nós éramos felizes e não sabíamos. Na verdade, por mais que isso pareça duro, os pequenos sofrimentos da adolescência nos preparam para o que virá depois.

O tempo passa e somos obrigados a crescer. Nossos relacionamentos se tornam mais sérios. As nossas responsabilidades aumentam, assinamos papéis ou dividimos tetos, contas e amizades, até que chegam os filhos e a quantidade de pessoas envolvidas aumenta mais ainda.  Nossos pais, sogros, irmãos e irmãs criam expectativas em torno do nosso relacionamento. Quando algo de errado acontece, a dor que agora sentimos é muito mais presente e muito mais duradoura.

Existem dores que são, de certo modo, doces e carregam em si a expectativa de acabar dentro de algum tempo. A dor da distância é assim. A dor da espera também. Sabemos que um dia ela vai acabar, sabemos que a pessoa amada está esperando e ainda nos ama. Esperamos com ansiedade pelo dia em que a distância não será mais longa que um abraço. Por mais que doa estar distante de quem amamos, aprendemos a ser pacientes e somos recompensados no reencontro.

Provavelmente a dor que mais nos ensina é a dor de perder alguém que amamos muito, seja por um acidente, um crime ou algo do gênero. É aquela dor que parece preencher todos os espaços e todo o nosso tempo. É uma dor constante, sofrida, porque acontece sem que esperemos. É ter que continuar a viver, mesmo sem ter vontade. É a dor que nos ensina a aceitar o inevitável. A dar a volta por cima e, sem nunca esquecer, continuar a viver. A dor da perda nos ensina a dar valor a cada momento junto àqueles que amamos, porque sabemos agora que esses momentos podem não existir amanhã.

Muita gente diz que a dor da separação está entre as mais doloridas. Na verdade creio que em termos de relacionamentos essa é a dor mais egoísta que existe. Dói mais pela culpa de não ter realizado os sonhos do que pela separação em si. Quando motivada por uma traição sua, dói pela sua fraqueza e mais ainda, pela decepção no olhar de seus filhos. Quando motivada por uma traição do outro dói pelo orgulho ferido. Quando a separação acontece simplesmente porque é a hora de se separar, já não há mais tanta diferença entre estar e partir. A solidão a dois já dói demais. Apesar de tudo podemos aprender com a dor da separação. Podemos tentar entender onde erramos e nos prepararmos para não errar novamente, em um novo relacionamento que virá. Com um pouco de serenidade conseguimos perceber o quanto magoamos com palavras ríspidas, com atitudes secas, com recusas infantis. A dor da separação ensina que todos, uma hora têm de ceder, que dar à pessoa amada um pouco mais de atenção pode fazer a diferença entre estar junto ou não. Avaliar o que passou mostra que um gesto de carinho, no momento certo, pode valer mais que milhares de palavras.

Pessoalmente creio que mais dolorida que a dor da separação é a dor da inação. É a dor que sentimos diante do sofrimento de quem amamos e que, por mais que queiramos, não temos como mitigar. É ver uma pessoa amada, seja ela sua companheira, pais, filhos ou irmãos, sofrer sem que possamos ajudar. É querer trocar de lugar e assumir a dor que ela sente, mas saber que isso nos é negado. É ver alguém que você ama definhando à sua frente e tentar manter o otimismo, tentar se mostrar confiante, mesmo que por dentro você esteja destroçado. Essa é a dor que nos ensina a viver dia a dia, um passo depois do outro. Sem esperar nada, sem querer nada a não ser que a pessoa que amamos viva e seja feliz. Afortunados são aqueles que nunca passaram por isso, mas todos aqueles que se viram nessa situação sabem que nada há a fazer além de aceitar. Essa é a dor que nos ensina a aceitação.

Por fim, a meu ver, a pior de todas as dores é a dor de não amar. A dor da solidão. A dor dos dias e noites sem ninguém. É olhar em torno e não ter com quem rir ou chorar. Ela nos faz olhar para trás e sentir saudades de tudo o que passou. Ela nos faz olhar para dentro de nós mesmos e nos faz tentar entender por quê estamos sofrendo. Ela nos faz olhar para frente e sentir esperança pelo que virá. Pois nada pode ser tão ruim quanto o não ser.

Marcio Luis Severo

Marcio Luis Severo– Colunista do site e da seção cultura e dicas.

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