Home Seções Cultura O último tango em Paris: um réquiem*

O último tango em Paris: um réquiem*

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Ontem, na imprensa, saiu o obituário de Maria Schneider. Poucos com menos de 30 anos ouviram falar dela. Ela foi atriz, e na década de 1970, consagrou-se contracenando com Marlon Brando num filme que foi um marco no cinema, O Último Tango em Paris”.

Se filmado nos dias de hoje, esse drama erótico “descambaria” mais para uma trama de “suspense erótico”, como atualmente é moda, com seus protagonistas fazendo sexo e matando, não necessariamente nesta ordem. Mas o filme é de 1972, e para a época –que tinha outros padrões morais e outros tabus- foi um escândalo. No Brasil, passou ANOS censurado, porque expunha a sexualidade de duas pessoas a um limite, e levava à reflexão de seus espectadores de “qual seria o limite no sexo”.

A trama consistia basicamente no envolvimento de um homem de 50 anos em recém viuvez, com uma jovem de 20 e poucos anos “liberada”. Eles estão interessados no mesmo apartamento para locação, e lá se encontram e começam um relacionamento com poucos limites sexuais, com a condição de nada saberem um do outro. Não é permitido falar do passado, do presente, e nenhum envolvimento a não ser aquele que acontece nestes fortuitos encontros no apartamento que acaba por ser alugado pelo personagem de Marlon Brando. É apenas sexo e nada mais.

Neste filme ocorre a famosa “cena da manteiga”, onde o personagem de Marlon Brando tem uma cena de sexo anal com a personagem de Maria Schneider utilizando-se de um pote de manteiga para lubrificação. Não, a penetração não aconteceu, mas o impacto da cena que beira à violência sexual inquietou milhares de pessoas, durante anos.

Cena da manteiga: ícone do sadomasoquismo light do cinema

O enredo se complica porque o homem acaba querendo justamente o contrário do que o pacto inicial do filme previra: Ele decide que eles deveriam ter um relacionamento sério, “normal”, e a mulher se desinteressa por ele justamente quando passa a conhecê-lo melhor. Como obviamente ele não vai aceitar a recusa da parceira, o filme acaba em tragédia.

Depois de muitos anos, em uma entrevista, Maria Schneider disse que “não faria o papel novamente”, porque se sentiu exposta, tanto pelo seu companheiro de cena, como pelo diretor Bernardo Bertolucci. O próprio Marlon Brando também disse, em outra ocasião, que o filme expunha “de forma desagradável” as entranhas da sexualidade dele, e que ele se sentiu invadido com tanta exposição.

Desde a estréia de “O Último Tango em Paris”, 39 anos se passaram. Alguns tabus continuam os mesmos, outros deixaram de ser tabus. O que não mudou, e pelo visto não mudará nunca, é a forma como nos apossamos da sexualidade, do desejo e das vontades do outro, porque embora hoje sejamos mais esclarecidos, no fundo, bem lá no fundo, ainda esperamos do outro um amor/tesão/paixão/entrega tão grande que nem nós mesmos sabemos se podemos retribuir à altura.

Quem ainda não viu, aproveite o final de semana para ver. Como é um clássico, muitas locadoras tem várias cópias, e na internet é fácil de ver também. Tire suas próprias conclusões e entenda porque AMAR é tão difícil para alguns.

Beijos e boa semana.

*Réquiem é uma canção composta para homenagear aos mortos, exaltando-lhes as virtudes que tiveram em vida.

 

Luciana Becharat

Luciana Becharat– colaboradora do site sexo e relacionamentos. Carioca da gema. A perspicácia em pessoa.

Para ler outros artigos deste autor clique aqui



 

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