O mar e a lua

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Eles se conheceram nos idos de 1930.

Rosa e Antônio eram vizinhos desde criança. Numa daquelas noites de lua cheia, que iluminava as ruas paulistanas e quando  ainda se podia brincar fora de casa e admirar o céu e as estrelas, se entreolharam diferente. Ali, sobre o testemunho da lua, nascia um amor de para o resto da vida. O tempo passou, ficaram mocinhos, o que era brincadeira de criança virou paixão, que virou amor e que acabou em casamento.

E então, o mar entrou na vida de Antônio. Ele era oceanógrafo, mas mesmo assim,não abandonou a lua, que é a responsável pelas marés. E assim, como o mar e a lua precisam um do outro para viver, viveram Rosa e Antônio felizes por toda a vida no Rio de Janeiro.

Tiveram filhos, netos, bisnetos, viveram a vida todos os dias. Muitas vezes a maré não estava para peixe, noutras a maré estava alta, assim como a lua, muitas vezes a vida tinha sua fase minguante, mas como a lua nova, ressurgia depois com seu lado cheio de esperanças e sonhos.

E a vida passou.

Já velhinhos, esqueceram um pouco do mar e da lua. Antônio deixou o mar, se instalou em São Paulo junto com Rosa, que já não lembrava mais da lua. Rosa ficou esquecida, tinha Alzheimer, não reconhecia mais as pessoas, nem olhava para a lua com brilho no olhar.

Antônio sentia saudades da Marinha, onde trabalhou por tanto tempo, mas cuidava de Rosa, onde ela se sentia segura, na casa onde viveu tanto tempo em São Paulo.

E ela, mesmo não falando tanto quanto antes nem reconhecendo quase ninguém, ainda reconhecia no olhar de Antônio aquele com quem viveu e amou a vida toda. Mesmo sem palavras, ela o observava, e ele, no alto de seus 90 anos, lúcido, olhava para ela como se ainda fosse a menina das ruas de São Paulo, que brincava de roda, corria, gritava, como qualquer criança livre, solta, sem maldade...

Mas Antônio ficou doente, estava debilitado, teve que ser internado. Rosa ficou só, e mesmo com companhia constante, sentia falta dele. Se calou, perdeu o brilho no olhar, entristeceu por dentro. Ficou imóvel, num coma de tristeza que só quem sofre pela perda de um amor sabe o que é.

Rosa levantou da cama e olhou para seu corpo imóvel. Ela sorriu. Olhou pela janela e viu a lua cheia, formosa, convidando para um passeio. Abriu a janela e seguiu a luz da lua.

Antônio estava sedado, em coma profundo, mas abriu os olhos ao sentir a presença de Rosa. Sorriu. Ela, que há tanto tempo não dizia nada, murmurou em seu ouvido:

- Vem amor, vamos ver o mar...

Sorrindo e com os olhos brilhantes,  levantou da cama, pegou a mão de sua amada e saíram em direção a janela, seguindo a lua que iluminava o caminhos daqueles que amam pela vida inteira.

Rosa e Antônio partiram na mesma semana da Terra, mas devem estar felizes lá no alto, vendo o mar à noite, com um lindo reflexo da lua...

Georgia Maria

 

Georgia Maria– articulista, escritora e colaboradora do site SeR.

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